sábado, 16 de maio de 2009

A vida de David, o gordo.




Ato IX – Festa de Familia (parte 3)


“O marxismo é o complexo que implica pensar que a grama sempre é mais verde do lado de lá, pois não esta contamina com a infecção do eu.” (Alain de Botton)

Nunca entendi porque todo gordo é carente, invejoso, e finge uma simpatia medonha. As primeiras memórias que tenho de meu irmão são um tanto bizarras, e não mudaram em vinte e cinco anos, ou melhor, pioram com o tempo. O tecido adiposo ao qual me refiro não só cobria o corpo da criatura, mas ainda vive em sua alma. Não importa quantas cirurgias faça sua mente sempre será flácida.
David nascera como o boneco de marshmallow, exato, aquele do Ghostbusters, sua estrutura óssea era frágil, devido à grande obesidade, só conseguira dar os primeiros passos aos sete. Eu como irmão mais velho era incumbido de andar ao lado da criatura, seja no colégio, nas brincadeiras infantis, ou seja, fui fadado a ser babá ate David completar quatorze (quando o ser resolvera se apaixonar por Marília, a loira da quadra de cima).
Toda loira é arrogante, com Marília não poderia ser diferente, a garota andava todas as manhas, polaina rosa, camiseta azul-calcinha, calça de lycra branca (perceptível a pata de camelo, e os grandes pêssegos na retaguarda), guiando Shenya, a poodle branco da velha Isaura, sua patroa. Por ironia do destino, num certo domingo Shenya escapara da guia e aparecera dentro do nosso quintal. O garoto gordo então aproveitou a oportunidade para ser o herói de sua musa (não sei o que foi pior, ver a criatura obesa correndo de um lado para outro com suas tetas batendo na face, ou a merda do poodle latindo prevendo a própria morte). O que de fato acontecera, depois de meia hora, meu irmão a beira de um ataque de asma tropeçara na guia do animal, a qual o fizera cair em cima da pobre cadela, transformando a em capacho de jardim.
A loira chegara a poucos minutos, ao ouvir os berros de David (pedindo minha ajuda, mentimos que um carro havia atropelado a pobre poodle, carro, uma jamanta!). Marília embora chocada ao ver o que sobrara de Shenya, beijou as bochechas pálidas e soadas da criatura, como num ato de consolação. Depois daquele dia David não fora mais o mesmo, resolvera então conquistar o amor da filha da domestica. Ingerindo coquetéis de anabolizantes e esteróides, num regime militar de academias ao longo de dois anos, se transformara em um mini Schwarzenegger.
Ao som de (every breath you take – the police) David tentara construir sua vida com a diaba de polainas rosa, após o nascimento de seu quinto filho, o “ex-gordo” descobrira ser estéril, entrando em depressão profunda larga seus exercícios e aditivos, em menos de dois meses retorna a seu tecido adiposo de origem.
Há três anos desde seu divorcio, e após passar pela segunda cirurgia de redução de estomago, meu irmão do meio me culpa por te-lo ajudado a mentir no caso poodle.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Eu nao matei Joana D’arc


Ato VIII – Festa de Familia (parte 2)


Dono de uma verdade absoluta, para não dizer total positivista cartesiana, Prof. Adolpho Gutierrez, ph. D. (Adjunct Professor at “Sapienza”, University of Rome, where he teaches “Psychology” at the Medical School and “Dynamic psychopathology” and “Child Psychotherapy” in the Department of Child and Adolescent Psychiatry), criara nós três como espelho de Dorian Gray.
Emma (shallow grave), não poderia ter o final diferente, aos quatro havia molestado nosso terceiro jardineiro, aos onze fugira pela quinta vez do colégio interno (N. Senhora da Garopita), recordo dos bons tempos dos quais ela jurava que éramos irmãos gêmeos, a partir do primeiro porre de Captain Morgan, talvez no alcoolismo e nas altas doses de antidepressivos nossas almas eram univitelinas.
Não poderia permitir que a enterrassem no jazigo das cobras, eram duas e trinta da matina após vômitos e gargarejos, havia recuperado o fôlego, pedi a Afrânio que me ajudasse com o corpo, estava linda (a funerária caprichou para esconder o buraco de doze), recordo que brincávamos no Richmond’s Park, todo domingo de outono juntávamos as folhas secas de carvalho, os shows piromaniacos foram perfeitamente mágicos.
Vinte e um dias entre a ida e volta de London, me proporcionaram um escorbuto neural. "Ho Ho Ho and a bottle of rum!".

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Festa de Família


Ato VII – O Tic-Tac Parou (parte 1)

“A pretensão me degrada, a humildade me deprime, e assim a vida é lesada, ora é virtude, ora é crime.” (F. Gullar)

Exatos um mês longe de meus mofos, tento acalmar os nervos empíricos de Gutierrez com cinco long necks de ruiva Devassa.
Emmanuele vinte e três anos internada em cárcere publico, escrava de seus capiciosos vícios sexuais, segundo velha Elvira, o primeiro gesto freudiano de referencia a “lesbus”, que cometera a menina, se dera quando seus dedinhos recém nascidos massagearam o clitóris da mãe (literalmente). Em meio ao velório ( a la “Festa de Família” – Thomas Vinterberg) não pouparam elogios a pobre garota, todo velório é igual, todos simpáticos, porem nem tanto, fingem umas lágrimas aqui outra ali, ate a chegada do irmão bêbado da extirpada defunta.
Não tive culpa, fui avisado às pressas por David (o outro irmão), há anos não dava as caras na casa dos horrores. Maldita segunda-feira 13! A pouco havia saído do consultório de Pacheco, pusera eu os pés no corredor de minha sala ouço berros de Edith – Senhor! David acabou de ligar, sua irmã morreu! – (confesso que a noticia me gelara toda a espinha dorsal). Tudo bem, nunca fui próximo de Emmanuele, quisera eu ter dito verdades a toda família hipócrita, e esta era minha oportunidade, odeio jargões, mas se me jogaram o limão o mínimo que pude fazer foi uma grande limonada (literalmente, com ajuda de Cuervo, é claro!).
Pedi a Pacheco que me mandasse um veiculo (não pego aviões). Afrânio guiara o Galaxy 59, ate a chegada ao covil dos Gutierrez (oito horas pela hightway) minha companhia fora dois e três quartos de Joses. O circo já estava armado, a mesa posta, Dr. Adolpho (o pai) exibira como sempre seus dons da retórica em uma das pontas, na outra velha Elvira resmungando pelo ultimo adeus não dado, David, seus cinco filhos bastardos e sua ex-mulher do lado direito, e do outro a ala senil dos maracujás (pior impossível).
A pouca dose de sangue no álcool me permitiu vomitar sujas verdades, acabando com “o triste fim de policarpo quaresma” – quer romance mexicano? Convide Paul Leduc para a festa! -.