
Ato IX – Festa de Familia (parte 3)
“O marxismo é o complexo que implica pensar que a grama sempre é mais verde do lado de lá, pois não esta contamina com a infecção do eu.” (Alain de Botton)
Nunca entendi porque todo gordo é carente, invejoso, e finge uma simpatia medonha. As primeiras memórias que tenho de meu irmão são um tanto bizarras, e não mudaram em vinte e cinco anos, ou melhor, pioram com o tempo. O tecido adiposo ao qual me refiro não só cobria o corpo da criatura, mas ainda vive em sua alma. Não importa quantas cirurgias faça sua mente sempre será flácida.
David nascera como o boneco de marshmallow, exato, aquele do Ghostbusters, sua estrutura óssea era frágil, devido à grande obesidade, só conseguira dar os primeiros passos aos sete. Eu como irmão mais velho era incumbido de andar ao lado da criatura, seja no colégio, nas brincadeiras infantis, ou seja, fui fadado a ser babá ate David completar quatorze (quando o ser resolvera se apaixonar por Marília, a loira da quadra de cima).
Toda loira é arrogante, com Marília não poderia ser diferente, a garota andava todas as manhas, polaina rosa, camiseta azul-calcinha, calça de lycra branca (perceptível a pata de camelo, e os grandes pêssegos na retaguarda), guiando Shenya, a poodle branco da velha Isaura, sua patroa. Por ironia do destino, num certo domingo Shenya escapara da guia e aparecera dentro do nosso quintal. O garoto gordo então aproveitou a oportunidade para ser o herói de sua musa (não sei o que foi pior, ver a criatura obesa correndo de um lado para outro com suas tetas batendo na face, ou a merda do poodle latindo prevendo a própria morte). O que de fato acontecera, depois de meia hora, meu irmão a beira de um ataque de asma tropeçara na guia do animal, a qual o fizera cair em cima da pobre cadela, transformando a em capacho de jardim.
A loira chegara a poucos minutos, ao ouvir os berros de David (pedindo minha ajuda, mentimos que um carro havia atropelado a pobre poodle, carro, uma jamanta!). Marília embora chocada ao ver o que sobrara de Shenya, beijou as bochechas pálidas e soadas da criatura, como num ato de consolação. Depois daquele dia David não fora mais o mesmo, resolvera então conquistar o amor da filha da domestica. Ingerindo coquetéis de anabolizantes e esteróides, num regime militar de academias ao longo de dois anos, se transformara em um mini Schwarzenegger.
Ao som de (every breath you take – the police) David tentara construir sua vida com a diaba de polainas rosa, após o nascimento de seu quinto filho, o “ex-gordo” descobrira ser estéril, entrando em depressão profunda larga seus exercícios e aditivos, em menos de dois meses retorna a seu tecido adiposo de origem.
Há três anos desde seu divorcio, e após passar pela segunda cirurgia de redução de estomago, meu irmão do meio me culpa por te-lo ajudado a mentir no caso poodle.



