Ato VI – Olho mágico
Abri uma das pálpebras como num automático hipnótico, ao ouvir os passos no corredor, aquele caminhar ardente em tom de escárnio. Hoje ela veio mais cedo do que de costume, Joana filha do turco Onofre, o velho do 303, que inveja deste senil, quem me dera tivesse aquelas mãos rosadas sob meus pés. Já passam das doze! Tenho que trocar as pilhas desta porcaria.
A senhorita aparenta uns vinte e sete, cabelos de fogo, sardas, hum... Sardas, desenhando sua esguia back-peach. Imagino que tenha os olhos flamejantes, não, verde-caribe, não, não azul-noronha. Nunca olhei seu rosto, há quatorze a observo do olho mágico. Lembro-me da primeira vez, seu walkman havia caído em fronte a minha porta, quando abri, sua face estava abaixada. Era uma menina muito engraçada, não tinha busto, não tinha nada.
Chuva! Bendita chuva daquele oito de novembro de noventa e nove, ela chegou as seis toda ensopada, quando vi aqueles que seriam os pés mais lindos já vistos pelo homem, cada dedinho secado por aquele perfumado echarpe mostarda.
Espero que chova na próxima semana, ela apenas visita o velho aos sábados, e no dia de todos os Santos, quando vão prestar salvas a dona Elasia, que por ironia faleceu neste corredor em frente a esta porta encardida, preciso comprar óleo de maquina, as dobradiças estão rangendo mais que meus dentes.

